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21 de março de 2010

Dia Mundial da Poesia - 2010

A Morte de D. Quixote

Roto o escudo, sem lança, a cota escalavrada,
Sozinho, abandonado, e à toa como um cego,
Do crepúsculo à luz dolente e imaculada
Entra na sua aldeia o altivo herói Manchego.

O ténue fumo sai do colmo das herdades,
Riem ao pé da fonte as frescas raparigas,
E à clara vibração sonora das trindades
Juntam-se brandamente as vozes e as cantigas.

E o audaz Campeador, o Justiceiro, o Forte,
Que andara pelo mundo a combater os maus,
Defendendo a Mulher, desafiando a Morte,
Do paterno casal sentou-se nos degraus.

Nos joelhos fincando o cotovelo agudo
E no punho cerrado a fonte reclinando,
Quedou-se largo espaço, ilacrimável, mudo,
Para o inútil passado os olhos alongando...

E, ali, na doce paz da sua alegre aldeia,
Sentiu que o avassalava uma tristeza infinda,
Quando esta voz se ouviu: «morreu-te a Dulcineia,
«Missionário do Bem, tua missão é finda!»

E ele a ouvir e a cismar! A trêfega sobrinha
Beija-o, fala-lhe, ri, abraça-o, mas o herói
D'est'arte lhe volveu: «A morte se avizinha,
«Levai-me para o leito!» E ouvi-lo pena e dói.

Do leito à cabeceira o Bacharel e o Cura
Tentam ressuscitar-lhe os sonhos e as quimeras;
Pintam-lhe o negro Mal triunfante, oh! amargura!
O fraco aos pés do forte, o bom lançado às feras...

Contam-lhe o frio horror dos cárceres sem luz,
Que nas torres feudais pompeava o velho Crime,
Que os crescentes do islão tinham vencido a cruz,
Que a injustiça era a Lei... Então, feroz, sublime,

Inquieto, semi-nu, sinistro, o cavaleiro
Bradou como um trovão: «Enverguem-me a loriga!
«Selem-me o Rocinante, ó Sancho, ó escudeiro,
«Traze-me a lança, presto! e a minha espada amiga!»

Tinha em brasas o olhar, e truculento o aspeito,
E vibrava em redor a imaginária lança...
Logo depois caíu do respaldar do leito,
Morto: tendo no lábio um riso de criança!

Gonçalves Crespo, Nocturnos

P. S. - Em homenagem à nossa amiga São (Conceição) que me emprestou este livro tão maravilhoso! Muito obrigado!

21 de março de 2009

Dia Mundial da Poesia - 21/03/2009

Hoje comemora-se o Dia Mundial da Poesia!...

O meu sogro, Manuel Vicente Lapa (que faleceu em 25/01/2007), também foi um poeta popular e um amante da poesia.

Aqui ficam dois poemas dele ainda inéditos.

Esta é uma homenagem simples a uma pessoa que também era simples e boa.



Dois olhos pretos tristinhos


Dois olhos pretos, tristinhos,

Por não poderem mostrar

As ternuras e carinhos

Que tinham para me dar!...


Eu fingindo, distraído,

Sem me mostrar desgostoso.

Por não ter correspondido

Julgava ser venturoso!...


Hoje arrasto a existência

Muito a custo e infeliz.

Pesando-me a consciência

O quanto de mal eu fiz!...


Querido Anjo adorado,

Perdoa-me, por favor.

Bem sabes não ser culpado,

Mas o destino traidor!...


O Céu também faz partidas

Por consentir que o Demónio

Proíba que duas vidas

Se unam por matrimónio!...



Em respeito e adoração


Não há flor desabrochada

Que não seja visitada

Pela abelha diligente.

Como gosta ser beijada

Sempre que é visitada!

Como se mostra contente!...


Seu desejo é que seu néctar

Se venha a transformar

Num mel delicioso.

Perdoa até ser cortada

Se no altar colocada

Por honra ao Deus bondoso!...


Murcha, pende para o chão

Em respeito e adoração

Que deve ao seu Criador.

Deu odor à criatura.

E agora com a maior ternura

Se fina, a meiga flor!...

30 de julho de 2008

Um poema lindo!...

Aqui fica um pequeno poema que o Sr. Professor Joel Canhão (um grande músico e poeta da nossa cidade de Coimbra que usa o pseudónimo literário de Mouro Serpa) dedicou à minha filha Graça Joana.
Este senhor é avô de uma grande amiga da Joana que se chama Madalena, que o avô dela trata por Lenita, e que nós conhecemos e tratamos por Madagui.

Flash


à Gracinha

1. Ó flor de lótus do lago
com achigãs sob as águas
doce raiz a cantar
o sol, a vida e mágoas.

2. Leva ouros que não mostra
elege a sombra, calada
rosto de porcelana
etéreos olhos de fada.

3. As mãos, punhados de longes
leva às costas um segredo
mas não o diz porque é seu
vai segura e vai sem medo!

Mouro Serpa
Julho de 2008

21 de março de 2008

Dia Mundial da Poesia - 21/03/08

Fraternidade

Indiferentes vinham. Solitários.
No rumo igual movidos e parados.
Vinham definitivos e precários.
(“Mantenham os seus cintos apertados»).
Indiferentes. Diferentes. Vários.
Por faixas de aparência amordaçados.

Vinham coincidentes e contrários.
Distantes. Lado a lado. Separados.

Súbito, o instante fez-se estrondo e morte.
E bocas, rostos, dedos, pernas, braços,
Plasmou-os num só barro a mesma sorte.

E unidos se fundiram, siderais,
Etéreos renasceram nos espaços,
Irmãos agora e para sempre iguais.

Miguel Trigueiros - «Tempo Comum»


Os finos laços

Em círculos o riso se alargava.
E eram corcéis de sons galgando muros.
E eram vagas de chamas e de lava
Ondeando os montes dos seus seios puros.
E eram rios de riso. A rir se dava.
E sorriam com ela os céus escuros.

O seu riso cheirava a rosa brava
Perfumando baldios e monturos.

E ria, em risos de água transparente,
Juncava-nos com pétalas de som,
Punha aragens de riso no ar doente…

E a rir, a rir, deixámos de estar sós.
Com finos laços, o seu riso bom
Unira alegremente todos nós.

Miguel Trigueiros - «Tempo Comum»

21 de março de 2006

Dia Mundial da Poesia

A Laís


À ciprina Laís, de quem sou tributário,
A Laís, que possui compridas tranças pretas,
P’lo meu escravo mandei, no seu aniversário,
Um cacho moscatel num cabaz de violetas.

Os amantes, que dão às suas namoradas
Fulgurantes anéis de riqueza estupenda,
Luminosos rocais e redes consteladas,
Hão-de sorrir, bem sei, da minha humilde of’renda.

Pensei em dar-lhe, é certo, um precioso colar
E um anel com mais luz do que o incêndio de Tróia,
Mas reconsiderei de pronto, ao atentar
Que ainda ninguém viu dar jóias a uma jóia…


Eugénio de Castro

13 de junho de 2005

Eugénio de Andrade

Hoje morreu o nosso grande poeta Eugénio de Andrade (pseudónimo de José Fontinhas).
Em resposta ao «post» anterior da nossa querida Joana (que nos trouxe um lindo poema), eu também quero homenagear aqui o poeta com um poema dele que é muito conhecido.
Eu devo dizer que gosto mais da poesia que rima do que da poesia que não rima. A meu ver, é isso o que distingue a poesia da prosa (até porque a prosa também pode conter em si imensa poesia...).
Mas, Eugénio de Andrade também fez poemas com rima (como se pode ver abaixo).
A pouco e pouco, eu também vou começando a apreciar os poemas sem rima. E é pela mão de Eugénio de Andrade que esta minha aprendizagem se vem fazendo desde há alguns anos.
Um grande obrigado a Eugénio de Andrade por tudo o que nos deixou.



As palavras interditas


Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.


(extraído de uma das várias colectâneas de poesia)

Urgentemente

É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
Ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegrias,
Multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer

Eugénio de Andrade
Até amanhã

3 de janeiro de 2005

As Janeiras (2)

1.
Ainda agora aqui cheguei
Já pus o pé na escada
Logo o meu coração disse
Que aqui mora gente honrada.

2.
Nós não vimos pelas Janeiras
Nós Janeiras cá trazemos
Vimos pelas obrigações
Que a esta casa devemos.

3.
Viva lá senhor F…
Usa o seu chapéu direito
Quando vai pela rua fora
Todos lhe guardam respeito.

4.
Viva lá senhora F….
Raminho de palma branca
Ainda anda neste mundo
Já no céu é uma santa.

5.
De quem é aquele anel d’oiro
Com pedrinhas ao redol
É do menino F…
Que é bonito como o sol.

6.
Viva lá menina F…
Suas faces são romãs
Seus olhos são mais galantes
Do que a estrela da manhã.

7.
Levante-se minha senhora
Desse banco de cortiça
Venha-nos dar as janeiras
Ou morcela ou chouriça.

8.
Alegrai-vos companheiros
Que eu já sinto gente a andar
É a senhora desta casa
Que nos vem a convidar.

9.
Ó que estrela tão brilhante
Que vem dos lados do norte
À família desta casa
Deus lhe dê uma boa sorte.



UBI (internet)

19 de dezembro de 2004

Um auto de Natal


Figuras do auto: - um Anjo e vários pastores.

………………………………………
Dormem e o Anjo os chama cantando:

Ah pastor
qu’es nacido el redentor.


GIL
Zagales llevantar d’ahi
que grande nueva es venida
que es la virgem parida
a los ángeles lo oí.
Oh qué tónica acordada
de tan fuertes caramillos.

BRÁS
Cata que serían grillos.

GIL
Júri a nos
Que eran ángeles de Dios.

LUCAS
E nos aqui llevantados
qué le habemos de hacer?

GIL
Mi fe vámoslo a ver.

BRÁS
Y ansí despelluzados?

GIL
Pardiez que es para notar
pues el rey de los señores
se sirve de los pastores
nueva cosa
es esta y muy espantosa.

Id vosotros al llugar
muy presto carillos mios
y no vamos tan vacíos
traed algo que le dar.
Y el rabé de Juan Xabato
y la gaita de Pravillos
y todos los caramillos
que hay enel hato
y para el niño un silbato.

Partem-se pera o presépio cantando:

Aburremos la majada
y todos con devoción
vamos ver aquel garzón.

Veremos aquel niñito
d’agora recién nacido
asmo que es el prometido
nuestro mexía bendito.
Cantemos a voz en grito
con hemencia y devoción
veremos aquel garzón.

E chegando ao presépio diz GIL:

Dios mantenga a vuestra gloria
ya veis que estamos acá
muy allegres soncas ah
de vuestra nueble vitoria.
A vos virgem digo yo
qu’el mochacho que hoy nasció
no entiendo que me entiende
mas sí que todo comprende
del punto que se engendró.

LUCAS
Qué casa tan pobrecita
escogió para nascer.

BRÁS
Ya comienza a padecer
dende su niñez bendita.

SILVESTRE
De paja es su camacita.

LUCAS
Y establo su posada.

BRÁS
Loada sea y adorada
y bendita
la su clemencia infinita.

GIL
Señora con estos hielos
el niño se está temblando
de frio veo llorando
el criador de los cielos
por falta de pañizuelos.
Juri a san si tal pensara
o por dicha tal supiera
um zamarro le truxera
de una vara
que ahotas qu’él callara.

Ora vosotros qué hacéis?
Com muy chapada hemencia
e con vuestra revellencia
dalde deso que traéis.

SILVESTRE
Perdonad señor por Dios
que como somos bestiales
los presentes no son tales
como los merecéis vos.

Com tangeres e bailos oferecem
e à despedida cantam esta chançoneta:

Norabuena quedes Menga
a la fe que Dios mantenga

Zagala santa bendita
graciosa y morenita
nuestro ganado visita
que nengún mal no le venga.
Norabuena quedes Menga
a la fe que Dios mantenga.
……………………………………….

Gil Vicente – “Auto Pastoril Castelhano”

16 de dezembro de 2004

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.


António Gedeão – “Poesias Completas (1956-1967)”

10 de dezembro de 2004

Natal

Estamos no tempo do Natal! Por isso, gostava de partilhar convosco dois poemas de Miguel Torga sobre esta quadra tão bela, na qual os homens são um bocadinho menos maus uns para com os outros...
* * * * *
* * *
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Natal (1950)
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Foi tudo tão normal
Que fiquei maravilhado.
Caiu neve no telhado
E juntou-se o mesmo gado
No curral.
Nem as palhas da pobreza
Faltaram na manjedoira!
Palhas babadas da toira
Que ruminava a grandeza
Do milagre pressentido.
Os bichos e a natureza
No palco já conhecido.
Mas, afinal, o cenário
Não bastou.
Fiado no calendário,
O homem nem perguntou
Se Deus era necessário...
E Deus não representou.
* * * * *
Natal (1962)
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Um anjo imaginado,
Um anjo dialéctico, actual,
Ergueu a mão e disse: - É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.
Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra e de incenso e oiro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breves como o vento
Que entra por uma fresta, quezilento,
Redemoinha e sai:
À volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternalmente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?