Inspirada pelos anjos, recostou-se na manjedoira, duas tábuas com outra de guarda armadas contra a parede. E voltando-se para oriente, no mais quieto e sossegado da noite, com o céu a destilar mel e cinamono, Maria deu à luz o Unigénito. Era bonito o bebé, com o que saiu verdadeiro o dizer dos Cantares de que o ventre daquela mãe era um campo de trigo donde brotaria uma papoila nunca vista. Mas quando os reis da Pérsia destinavam cento e oitenta milhões para gastos de cama e as almofadas em que nasciam e se criavam os infantes; enquanto o trono de Salomão era de marfim recamado de oiro e o seu reclinatório de púrpura bordada a prata e oiro e constelada de gemas, com uma guarda de sessenta núbios à roda – ele nascia num presépio sobre o retraço dos animais.
(…) Nasceu sem adjutório ou ministério de qualquer pessoa, sem queixa nem moléstia de sua santíssima mãe, antes, como anunciara Isaías, laetabunda et laudans, contentíssima e dando graças. Da mesma maneira que a árvore não sente dor quando despega o fruto maduro, assim sucedeu com ela. E como não – argumentam os doutores de pensar subtil – se a dor e tormento do parto correspondem ao deleite da concepção carnal, e ela fora alheia a todo o toque?
(…) As vozes são discordes quanto à presença ou não presença da túnica placentária, secundina lhe chamavam S. Jerónimo e as nossas avós, que devia cingir o corpinho do Menino-Deus.
(…) Muito se tem ventilado também se no estábulo assistiam a burra e a vaca, como ideou S. Francisco no primeiro presépio e, após ele, quantos poetas souberam pegar em pincéis, e quantos rapsodos vazaram a rude palavra de romance nas ledas estâncias dos autos e mistérios. Se veio a cavalo de Nazaré, não admira que apareça uma burra a bafejar o inocentinho intanguido nas palhas nuas. Mas donde saiu a vaca?
(…) Foi a noite santa uma noite de prodígios. Ruiu em Roma o templo da Paz, explicando os intérpretes sagrados que, bem embora há quatro anos se não ouvisse ferrolhar na bainha a espada de um legionário, tinha ali fim aquela paz torpe, feita de violência sob a égide dos fáscios romanos, e começava outra, a paz em que o leão havia de comer a palha com o boi, segundo Isaías, aquela em que Cristo seria o primeiro ladrão, na frase de Santo Ireneu, despojando o rico em favor do pobre, paz proclamada desde o começo das idades pelas longas e sacabuxas de anjos e serafins:
- Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade!
Essa noite viu-se orvalhada a terra sem se molhar o véu de Gedeão. Calaram-se os oráculos em quantos bosques sagrados cobriam a Hélade e a terra latina, e ouviram-se os lamentos flébeis das pitonisas e divindades voluptuosas mergulhando para todo o sempre no recesso das selvas e nas grutas que se cisparam uma vez por todas. O grande Apolo Pítio, para o qual corriam os devotos como abelhas para a flor da esteva, desapareceu a clamar:
- Um menino judeu manda-me tornar para o Orco! Adeus para sempre, adeus para sempre!
Em Roma esteve a correr azeite à franca para quem queria, e vieram da Suburra e até mesmo da oficina de Vénus que havia na Via Ápia mulheres munidas de celhas a apará-lo. As vinhas de Engadi deram uvas. Caíram ao chão no Egipto, despedaçando-se, os ídolos de bronze. Desfez-se também em bocados a estátua da Loba e até as letras sagradas se apagaram nas colunas votivas dos templos e das praças.
Mal o Menino veio à luz, sem uma mancha, branco e limpo que nem talhado em neve pura, beijou-lhe Maria os pés como a seu Deus e depois o rosto como a seu filho. E logo ele lhe sorriu um sorriso que a inundou de luz, sinal do sol rútilo que ia alvorecer para o mundo.
Enfaixou-o a mãe nos panos de beatilha com que viera preparada e chegou-o ao peito. Foi mamando, agora já de beicinhos roxos pelo frio, que os pastores o vieram encontrar com as oferendas. Traziam queijinhos de seus bardos, braçadas de flores, fruta e aves de capoeira. (…) Os pastores entraram de surrão, com suas mocas debaixo do braço, seus chapeirões contra o sol, a gaita a espreitar da algibeira. E, dobrando o joelho, o adoraram. A voz dum vulto que se escoava na noite dissera-lhes na primeira modorra:
- Ide à corte dos gados, à entrada de Belém, no caminho da cisterna de David, que nasceu lá o Messias!
Era então verdade? Os coxos e os trôpegos iam saltar como cervos? Ia raiar o sol da justiça para todos? Nunca mais o forte espancaria o fraco, nem o rico poderia jantar duas vezes enquanto ao pobre só restava o direito de morrer a louvar o Senhor?
Afirmam os teólogos que ali se operou miraculosamente a união dos termos mais antitéticos que o espírito pode conceber: - Deus e homem, virgem e mãe, eternidade e tempo, céu e terra, morte e vida, e a percepção de tal mistério pelo coração do homem. Os pastores, esses, esperavam a redenção humana do mal, do sofrimento, da dor e da agonia. Por isso, entoavam e a sua voz chamava a gente que passava para os agros na manhã alta:
- Gloria in excelsis Deo!!
Aquilino Ribeiro – “O Livro do Menino-Deus”
(…) Nasceu sem adjutório ou ministério de qualquer pessoa, sem queixa nem moléstia de sua santíssima mãe, antes, como anunciara Isaías, laetabunda et laudans, contentíssima e dando graças. Da mesma maneira que a árvore não sente dor quando despega o fruto maduro, assim sucedeu com ela. E como não – argumentam os doutores de pensar subtil – se a dor e tormento do parto correspondem ao deleite da concepção carnal, e ela fora alheia a todo o toque?
(…) As vozes são discordes quanto à presença ou não presença da túnica placentária, secundina lhe chamavam S. Jerónimo e as nossas avós, que devia cingir o corpinho do Menino-Deus.
(…) Muito se tem ventilado também se no estábulo assistiam a burra e a vaca, como ideou S. Francisco no primeiro presépio e, após ele, quantos poetas souberam pegar em pincéis, e quantos rapsodos vazaram a rude palavra de romance nas ledas estâncias dos autos e mistérios. Se veio a cavalo de Nazaré, não admira que apareça uma burra a bafejar o inocentinho intanguido nas palhas nuas. Mas donde saiu a vaca?
(…) Foi a noite santa uma noite de prodígios. Ruiu em Roma o templo da Paz, explicando os intérpretes sagrados que, bem embora há quatro anos se não ouvisse ferrolhar na bainha a espada de um legionário, tinha ali fim aquela paz torpe, feita de violência sob a égide dos fáscios romanos, e começava outra, a paz em que o leão havia de comer a palha com o boi, segundo Isaías, aquela em que Cristo seria o primeiro ladrão, na frase de Santo Ireneu, despojando o rico em favor do pobre, paz proclamada desde o começo das idades pelas longas e sacabuxas de anjos e serafins:
- Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade!
Essa noite viu-se orvalhada a terra sem se molhar o véu de Gedeão. Calaram-se os oráculos em quantos bosques sagrados cobriam a Hélade e a terra latina, e ouviram-se os lamentos flébeis das pitonisas e divindades voluptuosas mergulhando para todo o sempre no recesso das selvas e nas grutas que se cisparam uma vez por todas. O grande Apolo Pítio, para o qual corriam os devotos como abelhas para a flor da esteva, desapareceu a clamar:
- Um menino judeu manda-me tornar para o Orco! Adeus para sempre, adeus para sempre!
Em Roma esteve a correr azeite à franca para quem queria, e vieram da Suburra e até mesmo da oficina de Vénus que havia na Via Ápia mulheres munidas de celhas a apará-lo. As vinhas de Engadi deram uvas. Caíram ao chão no Egipto, despedaçando-se, os ídolos de bronze. Desfez-se também em bocados a estátua da Loba e até as letras sagradas se apagaram nas colunas votivas dos templos e das praças.
Mal o Menino veio à luz, sem uma mancha, branco e limpo que nem talhado em neve pura, beijou-lhe Maria os pés como a seu Deus e depois o rosto como a seu filho. E logo ele lhe sorriu um sorriso que a inundou de luz, sinal do sol rútilo que ia alvorecer para o mundo.
Enfaixou-o a mãe nos panos de beatilha com que viera preparada e chegou-o ao peito. Foi mamando, agora já de beicinhos roxos pelo frio, que os pastores o vieram encontrar com as oferendas. Traziam queijinhos de seus bardos, braçadas de flores, fruta e aves de capoeira. (…) Os pastores entraram de surrão, com suas mocas debaixo do braço, seus chapeirões contra o sol, a gaita a espreitar da algibeira. E, dobrando o joelho, o adoraram. A voz dum vulto que se escoava na noite dissera-lhes na primeira modorra:
- Ide à corte dos gados, à entrada de Belém, no caminho da cisterna de David, que nasceu lá o Messias!
Era então verdade? Os coxos e os trôpegos iam saltar como cervos? Ia raiar o sol da justiça para todos? Nunca mais o forte espancaria o fraco, nem o rico poderia jantar duas vezes enquanto ao pobre só restava o direito de morrer a louvar o Senhor?
Afirmam os teólogos que ali se operou miraculosamente a união dos termos mais antitéticos que o espírito pode conceber: - Deus e homem, virgem e mãe, eternidade e tempo, céu e terra, morte e vida, e a percepção de tal mistério pelo coração do homem. Os pastores, esses, esperavam a redenção humana do mal, do sofrimento, da dor e da agonia. Por isso, entoavam e a sua voz chamava a gente que passava para os agros na manhã alta:
- Gloria in excelsis Deo!!
Aquilino Ribeiro – “O Livro do Menino-Deus”
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