15 de dezembro de 2004

Natal Português

Ia nascer o Menino-Deus. Já a beata da Clarinha mai-lo (mais o) João Lájeas lhe armavam a cabana, colmo de palha, chão de musgo, e uma manjedoira para a burra e para a novilha, que era mocha (sem cornos), salvo seja. De parede, punham velhos chamalotes (tecidos) e, em torno do santo berço, os zagais (pastores) de anhos às cavaleiras, os reis com bornal farto e toda a rude malta dos caminhos. A Clara pernóstica (espevitada) todos os anos mandava cortar à Glòrinhas, que tinha muito boas mãos, uma camisa nova para o menino; camisa de fina holanda (tecido), muito cóscora (duro) da goma, colarinho à marialva, e ele, que era mesmo um torrão de açúcar, ria, ria, nem que lhe estivessem a fazer cócegas no umbigo. E assim fagueiro (sereno), nas sombras esvaentes da missa do galo, à luz das velas de chama de oiro, o dava a beijar o Sr. Padre, murmurando:
- Venite, adoremus.
O Menino-Deus era regalado de beijos, que de prendas não. Para o vale, peitavam-no (presenteavam-no) com melápios (peros doces), camoesas, peras, pinhas de gulosaria, enchendo-se a rica bandeja que no adro ia à praça para quem mais desse. Na Serra, não havia mimos e o João da Cruz andava caro. Embora, o Salvador do Mundo acolhia os serranos sempre muito prazenteiro, como se cada um lhe levasse todo o oiro, incenso e mirra dos magos do Oriente.
Lá andava no presépio o João Lájeas, entrementes que as donas da casa faziam os preparos da consoada.
O carujo (nevoeiro espesso) vinha descendo dos picotos, e os ladridos dos cães, nos rebanhos, soavam de longe, que nem do cabo do mundo. Caía um taró (frio) de rachar, mas larga, não era com o juiz da capela que ele queria meças. Temente a Deus e observador daquele grande dia de preceito, vingava-se de bocada a menos com gòlada a mais. A santa madre igreja, benfeitora dos homens, ordenava: tende fome, mas nanja (não) tende sede. E, ao ir por pregos, e pelo martelo, e por água para lavar a cara tisnada de Belchior (rei mago), torcia o caminho pelo vendeiro (mercearia/taberna).
- Que bafo vomecê deita, tio João! – exclamava a Clarinha beata, desviando a venta. – Se lhe prantam (põem) um lume à boca, arde como pólvora.
- Pois olha, mal o provei; não tem lastro (comida). O Menino-Deus me aceite o sacrifício!
A noite vinha descendo, nimbada (nublada) de bruma. Levava um ano a voltar, bem-vinda fosse com o cepo a infundir-se (queimar-se) na lareira, caçoilas cheias, paz e alegria! Muitos, antes de perfazer seu giro a roda do tempo, estariam a adubar a terra da verdade (mortos). Outros levá-los-ia o fadário (a sorte) para longe. Toca a comer e a beber, e salve, noite do Natal!


Aquilino Ribeiro – "Terras do Demo"

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